quarta-feira, 9 de Dezembro de 2009

Terras das Crianças no Perú

Entregar uma porçao de terreno às crianças, para que dela cuidem. Contar histórias sobre a natureza, fazê-las acompanhar e amar as suas plantas que crescem. Acompanhar o crescimento de futuros guardioes da terra e da natureza, dando-lhes todo o direito a ser crianças. Trabalhar pela defesa do ambiente pela maneira mais criativa e divertida e com meninice. Este é o desafio proposto a todas as escolas e pais e organizaçoes e crianças, lançado pela associaçao Ania, sediada em Lima.
Várias escolas e agrupamentos de pais e crianças, nos quatro cantos do Perú, aceitaram o desafio. E nós também: enviando voluntários para diferentes projectos e começando, passo a passo, a nossa Terra das Crianças em Portugal - quiçá na alentejana Aldeia das Amoreiras, através do Centro de Convergência...?
Reunimos com o pai e mentor de Ania em Lima e seguimos em direcçao a Cusco para visitar alguns projectos. No Vale Sagrado, que desemboca no tao conhecido e místico Machu Pichu, estivemos já em Wiñaypac, Tikapata e Ollantaytambo.

terça-feira, 1 de Dezembro de 2009

Shinai: pensar, recordar ou amar

Em Lima reunimo-nos com a organizaçao Shinai. Shinai significa pensar, recordar ou amar no idioma Nahua, do povo que vive no Sul da Amazónia peruana. Esta organizaçao, composta de jovens, apoia as comunidades amazónicas na defesa dos seus direitos contra a exploraçao dos recursos naturais na Amazónia, com graves impactes ambientais. Falamos sobretudo de exploraçao petrolífera e de comunidades que vivem na sombra da desflorestaçao, derrames de petróleo, contaminaçao dos seus recursos hídricos e solos. Falamos de comunidades que, devido a estas exploraçoes, deixaram de ter o espaço natural necessário à continuaçao das suas práticas ancestrais de caça e recolecçao e das suas práticas rituais, e assim vao perdendo a sua identidade e auto-estima. Há graves repercussoes na saude das crianças e de toda a comunidade, devido à ingestao de águas contaminadas e demais contacto com agentes nocivos.

Shinai trabalha com diversas comunidades indígenas, através de processos participativos e de capacitaçao. Começam por fazer um mapeamento dos territórios de cada comunidade. Os mapas resultantes permitem defender os seus direitos de cada vez que uma nova empresa quer impôr a sua autoridade sobre determinadas áreas, ignorando a que comunidade pertencem. Os mapas participativos, desenhados pelos indígenas locais, documentam a vivência pessoal dos territórios e os conhecimentos das plantas, dos animais e dos mitos. De seguida, a capacitaçao de monitores ambientais eleitos pela comunidade e dotados de GPS e câmaras fotográficas permite monitorizar delitos ambientais.
Shinai vai acolher voluntários, que estejam fortemente interessados e motivados para experienciar trabalho de campo junto de comunidades na Amazónia profunda e a partir da cidade de Iquitos - onde todas as deslocaçoes se fazem de barco.

Lima, Perú




¿ Ecuador !


Partimos para esta nossa primeira viagem à América Latina com a expectativa de conhecer um povo politicamente activo, numa cidadania muito participativa. Foi isso que encontrámos no Equador. Se num primeiro dia em Quito nos deparámos com uma manifestaçao pró-governo Correa, poucos dias depois encontrámos milhares nas ruas, exprimindo a sua opiniao contra a política na área das universidades. Aí estavam pessoas vindas de todas as partes do país, de várias idades e etnias, firmes nas suas vozes e convicçoes.

No Equador é obrigatório votar. As listas saem com números e nao com cores de esquerda ou de direita. Por todo o país vimos casas com bandeiras ou posters ou mesmo pinturas, exprimindo o numero da sua eleiçao. De resto é comum encontrar pinturas ou dizeres nas fachadas das casas, que podem anunciar algum produto ou uma qualquer redençao religiosa...

Correa taxou pela primeira vez grandes grupos económicos operantes no Equador, o que, juntamente com apoio à construcçao de casas e o tornar gratuito da educaçao básica, o tornou bastante popular. A nível ambiental tem sido desastroso, dando luz verde à exploraçao mineira e petrolífera, com grandes impactes ambientais em áreas protegidas pela sua enorme biodiversidade.

No Equador há autocarros para todo o lado a toda a hora. Passam por nós a gritar os seus destinos, como se se tratasse de uma grande competiçao por passageiros. Passam música bem alta e pelo caminho entram pequenos negociantes que te tentam vender todo género de comida e bebida, doces e CDs. Também há que viajar muito de noite. A cordilheira dos Andes passa bem no centro de país, de Norte a Sul, por isso qualquer deslocaçao entre a Costa e Oriente tem de passar pelas montanhas.

Satisfizemos as nossas expectativas de encontrar um forte movimento social, com muitas organizaçoes nao governamentais e, sobretudo iniciativas comunitárias. Bosques comunitários, turismo comunitário, economia solidária, pudemos visitar bons exemplos destes movimentos e, sem dúvida, aprender muito com eles. Nao posso deixar de referir o enebriamento de algumas paisagens, sobretudo lá onde a natureza é ancestral ou colossal, como no caso das montanhas.

segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

Amazónia!

Ha! Depois de tantos anos a sonhar com a Amazónia, ei-la que se descobre perante nós! Chegámos dia 19 de Novembro a Macas, no Oriente (como no Equador se designa à regiao amazónica), mais uma vez em longas horas de autocarro, desfilando entre vales verdes e cascatas à beira da estrada e aldeias de madeira invadidas de verde por todos os cantos. Que deslumbramento!
Na cidade de Macas reunimos com a Fundación Chankuap. Esta organizaçao trabalha com comunidades indígenas Shuar e Achuar, distantes da cidade por intermeio de avioneta e barco. Com eles trabalham temas como a segurança alimentar, acompanhando-os no cultivo de hortas de subsistencia e depois comprando produtos excedentes, tais como o amendoim, o achiote, o gengimbre e muitas outras plantas. Estes produtos sao transformados em Macas, nas instalaçoes da Fundación Chankuap, resultando em cosméticos naturais ou fito-fármacos. Também se comercializam produtos nao transformados e ainda artesanato. Muitos dos produtos da fundaçao sao exportados como Comércio Justo. Além disto, a fundaçao trabalha com meninos de Macas, para reinserçao e reforço escolar, prevenindo a existencia de crianças na rua.
O trabalho da Fundación Chankuap em Macas originou-se de missoes salesianas junto das comunidades indígenas e, embora a maior parte da equipa seja laica, nao pudemos aperceber através da reuniao qual o teor cristao da sua intervençao junto das comunidades.

Depois de reunirmos com Chankuap, decidimo-nos oferecer a nós próprios dois dias de selva! Sim, com crianças e tudo e sim, é possível. Nao penetrámos profundamente na selva, mas caminhámos em floresta primária e andámos de canoa nos rios. Onde estivemos, o risco era reduzido de encontrar animais ou insectos "perigosos". Uma guia explicou-nos as dádivas florestais, entres legumes da selva, plantas de onde se bebe água e muitas plantas medicinais. À noite, numa cabana, contou-nos histórias da mitologia Shuar e de algumas práticas xamanicas. No dia seguinte decidimos caminhar até uma cascata... e fomos completamente banhados por uma chuva torrencial, que nos deixou encharcados a todos. Sim, crianças e tudo... Bem que se denomina em ingles "rain forest" às florestas tropicias! Apanhámos mais um autocarro de longas horas e seguimos em direcçao ao Perú.

quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

Salinas, um modelo de desenvolvimento

Para visitarmos Salinas, nas montanhas, tivemos de viajar dois dias entre muitas horas de autocarros, carrinhas de caixa aberta e ... gaivotas! Viajar é difícil!


Salinas é uma freguesia e uma vila com o mesmo nome, localizada na cordilheira do Andes a 3500m de altitude, no centro do Ecuador, que ficou famosa por um inesperado processo de desenvolvimento local comunitário do qual resultaram várias empresas comunitárias, que empregam mais de mil pessoas e cujos lucros sao investidos no melhoramento da comunidade.




Com a chegada de um padre salesiano há cerca de 40 anos e com a grande cooperaçao de uma comunidade muito unida e muito trabalhadora, criaram-se desde entao várias queijarias, uma fábrica de chocolates, uma fábrica de fio de la de ovelha e alpaca, uma cooperativa de mulheres artesanato textil com o fio produzido no local, uma fábrica de produtos de soja, uma producao de cogumelos secos, uma aquacultura de trutas, um hotel e visitas de turismo geridas por uma cooperativa de jovens, uma empresa de exportaçao para comercio justo, uma empresa de comercializaçao nacional, entre outros.




A vila de Salinas situa-se a cerca de 3500 metros de altitude, enquanto outras comunidades da mesma freguesia (ou paróquia, em Ecuatoriano, tal como antigamente em Portugal) se situam a apenas 900 metros acima do mar. No total sao 30 comunidades em que as suas populacoes variam das 40 às 2000 pessoas. Nas empresas destas comunidades nao se investe em máquinas que substituam o trabalho de pessoas locais. Apenas se compram as máquinas estritamente necessárias...



Hoje, apesar de Salinas ser visitada por milhares de pessoas por ano para conhecer e aprender com o processo de desenvolvimento ocorrido, começam a ocorrer alguns problemas ambientais. As fábricas de queijo começaram a poluir demasiado as águas e as crianças já nao podem tomar banho no rio. As comunidades mais abaixo queixam-se. A produçao de gado ligeiramente superior ao ideal comecou a gerar desmataçao, erosao, perda de produtividade dos solos, falta de água nos rios. O aumento da populacao que se deveu ao aumento do emprego causou um aumento nas águas residuais que também foram poluir o rio. A produçao de lixo também aumentou o que começou a tornar-se um problema.


Todos estes problemas ambientais das comunidades da freguesia de Salinas estao identificados no plano estrategico de desenvolvimento da comunidade, elaborado pela comunidade de forma intensamente participada.


Hoje a populacao e as organizaçoes e empresas da freguesia estao motivadas e pedem voluntários para ajudar a reflorestar os terrenos comunitários, construir um viveiro comunitário e oferecer árvores a toda a comunidade para replantar também os terrenos privados. Dar formaçao em agricultura orgânica, reciclagem, construçao de casas de banho secas, construçao de fito-etars, recuperaçao da água da chuva, compostagem, educaçao ambiental na escola primária e secundária e ensinar técnicas de reciclagem de lixos que possam ser transformadas em produtos artesanais feitos pela comunidade para vender para o exterior.

Para ajudar a tornar esta freguesia num modelo de desenvolvimento + sustentável te podes voluntariar!

Até breve!

sábado, 14 de Novembro de 2009

Uma Quinta Biológica a transbordar de voluntários

Rio Muchacho é uma quinta biológica que tem tantos interessados em fazer voluntariado que cobra 350 dólares por mês ou 15 dólares por dia a cada voluntário. O trabalho começa às 6 da manha e termina às 4 da tarde. Oferecidas sao as 3 boas refeiçoes vegetarianas diárias que marcam o ritmo da labuta diária e a estadia em camaratas construídas em bambu, servidas por casas de banho secas e um rio ao lado para molhar os pés.


Entrada da quinta biológica Rio Muchacho

Nesta quinta também é possível fazer um curso teórico-prático de agricultura biológica, com a duraçao de um mês (1000 dólares), onde se realçam sete princípios: 1) Devolver a matéria ôrganica à terra; 2) evitar monocultivos; 3) Alimentar a terra e nao a planta; 4) Fazer a rotaçao de culturas e usar associaçoes entre plantas; 5) Evitar uso de agroquímicos; 6) Fomentar a Biodiversidade; 7) Nao fazer queimadas.

Mas esta quinta, que tem vários hectares a produzir eficientemente, nao poe no mercado os seus produtos pois nesta zona do ecuador nao existe um bom mercado para os produtos biológicos. os produtos biológicos servem todos para alimentar os voluntarios, alunos e turistas.

E o que faz esta quinta com todo o dinheiro dos seus visitantes? Na verdade esta quinta esta localizada numa comunidade com o mesmo nome e nela construiu a "Escola Ambientalista de Rio Muchacho". É uma escola primária privada com um programa de educaçao ambiental transversal a toda a aprendizagem em que os alunos pagam 2 dólares por mês e em que a quinta paga tudo o resto. Para nao ficar por aqui esta quinta conseguiu extender o seu programa de educaçao ambiental a mais 11 escolas da regiao e conseguiu estimular varios projectos de reciclagem na cidade mais próxima, tendo mais tarde se auto-declarado Bahía de Caraquez - cidade ecológica.


Loja comunitária para os produtos da comunidade, gerida pela quinta e que abre apenas quando se pede.

Claro que nao pode ser tudo perfeito. Apesar de todo este trabalho comunitario focado essencialmente nas crianças, os adultos em volta estao um pouco fora do ramo de acçao desta empresa de turimo e quinta biológica. Assim, a quinta biológica é um oásis verde no meio de uma zona envolvente quase desértica que assim se tornou devido a dezenas de anos de desflorestaçao e de criaçao de vacas intensiva em zonas declivosas. Faz lembrar um pouco o que aconteceu nos declives do alentejo...
No meio desta secura encontrámos outro oásis onde fomos a cavalo para ver uma família de macacos que vivem numa área de 80 hectares de floresta protegida por uma senhora de 94 anos, proprietária local, ecologista sem o saber.