quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Salinas, um modelo de desenvolvimento

Para visitarmos Salinas, nas montanhas, tivemos de viajar dois dias entre muitas horas de autocarros, carrinhas de caixa aberta e ... gaivotas! Viajar é difícil!


Salinas é uma freguesia e uma vila com o mesmo nome, localizada na cordilheira do Andes a 3500m de altitude, no centro do Ecuador, que ficou famosa por um inesperado processo de desenvolvimento local comunitário do qual resultaram várias empresas comunitárias, que empregam mais de mil pessoas e cujos lucros sao investidos no melhoramento da comunidade.




Com a chegada de um padre salesiano há cerca de 40 anos e com a grande cooperaçao de uma comunidade muito unida e muito trabalhadora, criaram-se desde entao várias queijarias, uma fábrica de chocolates, uma fábrica de fio de la de ovelha e alpaca, uma cooperativa de mulheres artesanato textil com o fio produzido no local, uma fábrica de produtos de soja, uma producao de cogumelos secos, uma aquacultura de trutas, um hotel e visitas de turismo geridas por uma cooperativa de jovens, uma empresa de exportaçao para comercio justo, uma empresa de comercializaçao nacional, entre outros.




A vila de Salinas situa-se a cerca de 3500 metros de altitude, enquanto outras comunidades da mesma freguesia (ou paróquia, em Ecuatoriano, tal como antigamente em Portugal) se situam a apenas 900 metros acima do mar. No total sao 30 comunidades em que as suas populacoes variam das 40 às 2000 pessoas. Nas empresas destas comunidades nao se investe em máquinas que substituam o trabalho de pessoas locais. Apenas se compram as máquinas estritamente necessárias...



Hoje, apesar de Salinas ser visitada por milhares de pessoas por ano para conhecer e aprender com o processo de desenvolvimento ocorrido, começam a ocorrer alguns problemas ambientais. As fábricas de queijo começaram a poluir demasiado as águas e as crianças já nao podem tomar banho no rio. As comunidades mais abaixo queixam-se. A produçao de gado ligeiramente superior ao ideal comecou a gerar desmataçao, erosao, perda de produtividade dos solos, falta de água nos rios. O aumento da populacao que se deveu ao aumento do emprego causou um aumento nas águas residuais que também foram poluir o rio. A produçao de lixo também aumentou o que começou a tornar-se um problema.


Todos estes problemas ambientais das comunidades da freguesia de Salinas estao identificados no plano estrategico de desenvolvimento da comunidade, elaborado pela comunidade de forma intensamente participada.


Hoje a populacao e as organizaçoes e empresas da freguesia estao motivadas e pedem voluntários para ajudar a reflorestar os terrenos comunitários, construir um viveiro comunitário e oferecer árvores a toda a comunidade para replantar também os terrenos privados. Dar formaçao em agricultura orgânica, reciclagem, construçao de casas de banho secas, construçao de fito-etars, recuperaçao da água da chuva, compostagem, educaçao ambiental na escola primária e secundária e ensinar técnicas de reciclagem de lixos que possam ser transformadas em produtos artesanais feitos pela comunidade para vender para o exterior.

Para ajudar a tornar esta freguesia num modelo de desenvolvimento + sustentável te podes voluntariar!

Até breve!

sábado, 14 de novembro de 2009

Uma Quinta Biológica a transbordar de voluntários

Rio Muchacho é uma quinta biológica que tem tantos interessados em fazer voluntariado que cobra 350 dólares por mês ou 15 dólares por dia a cada voluntário. O trabalho começa às 6 da manha e termina às 4 da tarde. Oferecidas sao as 3 boas refeiçoes vegetarianas diárias que marcam o ritmo da labuta diária e a estadia em camaratas construídas em bambu, servidas por casas de banho secas e um rio ao lado para molhar os pés.


Entrada da quinta biológica Rio Muchacho

Nesta quinta também é possível fazer um curso teórico-prático de agricultura biológica, com a duraçao de um mês (1000 dólares), onde se realçam sete princípios: 1) Devolver a matéria ôrganica à terra; 2) evitar monocultivos; 3) Alimentar a terra e nao a planta; 4) Fazer a rotaçao de culturas e usar associaçoes entre plantas; 5) Evitar uso de agroquímicos; 6) Fomentar a Biodiversidade; 7) Nao fazer queimadas.

Mas esta quinta, que tem vários hectares a produzir eficientemente, nao poe no mercado os seus produtos pois nesta zona do ecuador nao existe um bom mercado para os produtos biológicos. os produtos biológicos servem todos para alimentar os voluntarios, alunos e turistas.

E o que faz esta quinta com todo o dinheiro dos seus visitantes? Na verdade esta quinta esta localizada numa comunidade com o mesmo nome e nela construiu a "Escola Ambientalista de Rio Muchacho". É uma escola primária privada com um programa de educaçao ambiental transversal a toda a aprendizagem em que os alunos pagam 2 dólares por mês e em que a quinta paga tudo o resto. Para nao ficar por aqui esta quinta conseguiu extender o seu programa de educaçao ambiental a mais 11 escolas da regiao e conseguiu estimular varios projectos de reciclagem na cidade mais próxima, tendo mais tarde se auto-declarado Bahía de Caraquez - cidade ecológica.


Loja comunitária para os produtos da comunidade, gerida pela quinta e que abre apenas quando se pede.

Claro que nao pode ser tudo perfeito. Apesar de todo este trabalho comunitario focado essencialmente nas crianças, os adultos em volta estao um pouco fora do ramo de acçao desta empresa de turimo e quinta biológica. Assim, a quinta biológica é um oásis verde no meio de uma zona envolvente quase desértica que assim se tornou devido a dezenas de anos de desflorestaçao e de criaçao de vacas intensiva em zonas declivosas. Faz lembrar um pouco o que aconteceu nos declives do alentejo...
No meio desta secura encontrámos outro oásis onde fomos a cavalo para ver uma família de macacos que vivem numa área de 80 hectares de floresta protegida por uma senhora de 94 anos, proprietária local, ecologista sem o saber.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Finca Sarita, Calceta

A expectativa de chegar mais perto do mar! Metemo-nos numa viagem de camioneta nocturna, que saiu de Quito e nos entregou pelas cinco da manha ao bafo quente tropical. Pela primeira vez descemos das montanhas, saindo dos Andes e abracando o calor. Prosseguimos viagem pela madrugada, descobrindo pouco a pouco a folia verde das arvores e bananeiras e plantas de variados feitios, adornadas por casas de bambu e madeira empoleiradas a metro e meio do chao. No lusco-fusco chegámos á quinta (finca) Sarita. Sara significa massaroca em quitchua, mas também é o nome da única menina em seis filhos que nasceram na quinta.
Finca Sarita é uma quinta familiar de cultivo 100% biológico, seguindo as ideias da Permacultura. Sérvio, o pai, gere a quinta, mas também é professor na universidade de Calceta. Recebe voluntários na sua quinta e dá formacao a indivíduos e comunidades sobre agricultura biológica e permacultura. Aqui dorme-se em cabanas feitas de bambu e utilizam-se apenas casas-de-banho compostáveis. Cultiva-se e prepara-se café e cacau biológicos, tal como todos os legumes utilizados na cozinha, mais ervas aromáticas e medicinais. Ao passear na quinta, vamos comendo mangas, pitangas, maracujás amarelos, cacau.

Durante a nossa estadia de tres dias, contribuímos para o viveiro de árvores nativas, que sao plantadas antes das pimeiras chuvas de Dezembro para reflorestar parte do bosque destruído para a criacao de gado. Também pisámos terra para fazer piscinas de piscicultura... ou pisar foi talvez o que menos fizemos no meio da lama... Certo é que ganhámos direito ao mergulho no rio que banha Finca Sarita.



Na Finca Sarita vai abrir vaga para voluntariado de um ano, para quem queira partilhar e aprender com a família de Sérvio as variadas tarefas diárias de manutencao de uma quinta de Permacultura. O projecto também se desenvolve junto da comunidade de Sarampione, sobretudo com aulas de ingles na escola.
De Finca Sarita continuámos em carrinhas e camionetas lotadas, até chegarmos á Bahia de Caráquez... e ao mar!

Kurikindi


Permanecemos dois dias na quinta Kurikindi, que se localiza em Cotacachi. É propriedade de um casal indígena de Cotacachi/ japones e tem por objectivo ser um centro ecológico de divulgacao e fomento da agricultura biológica. É também activo na sensibilizacao ambiental da comunidade local, com enfoque na promocao das casas-de-banho compostáveis, numa zona onde nao existem esgotos.

sábado, 31 de outubro de 2009

A comunidade activista de Intag

Passámos quatro dias na zona de Intag, onde se encontra uma inesquecível história de resistência e defesa do património ambiental, por parte das comunidades locais e de organizaçoes. A comunidade de Junin, em Intag, foi colonizada a partir dos anos 50 por pessoas de diferentes meios culturais do Equador, que a construiram com as suas próprias maos e com um fortíssimo espírito comunitário. Exemplo disso foi o estabelecimento de "mingas", que significa dias de trabalho comunitário, em que todos os vizinhos se encontram para construir infra-estruturas comunitárias, mas também para se ajudarem uns aos outros na construçao das suas casas e nos ciclos agrícolas das quintas. Junín encontra-se numa área natural riquíssima de bosque nublado, com áreas de bosque secundário e primário, onde residem variadíssimas espécies de animais, aves, borboletas, árvores, orquídeas... e onde se descobriu cobre.

"A maldiçao do cobre" como lhe chamam grande parte dos residentes da zona de Intag. Pois com o cobre chegaram pesadíssimos interesses de exploraçao mineira, através da concessao por parte do governo a grandes empresas multinacionais, primeiro a Mitsubishi japonesa (Bishimetals) que foi expulsa pura e simplesmente através da acçao da comunidade local. Teve-se acesso ao estudo de impacto ambiental, que dava conta da necessidade de deslocaçao integral de cinco comunidades, incluindo Junín, de massiva desflorestaçao e contaminaçao dos rios. A populaçao nao foi consultada. Recentemente a luta continuou contra a empresa canadense Ascendent Copper, até que o governo foi obrigado a retirar as concessoes para a exploraçao do cobre de Junín. A história é longa e certamente apaixonante, resultando numa crescente politizaçao da comunidade local, que assumiu a responsabilidade pela conservaçao do bosque comunitário, e no surgimento de uma série de actividades económicas sustentáveis, tais como café biológico de comércio justo ou produtos naturais feitos por cooperativas de mulheres. Quando voltarmos a Portugal teremos todo o gosto em mostrar-vos documentários fortíssimos acerca da luta de Intag.

Em Intag reunimos com diferentes organizaçoes com trabalho estabelecido há anos na direcçao do desenvolvimento sustentável, sempre em respeito pelas comunidades e pelo meio ambiente. Muitas destas organizaçoes têm já experiência em receber voluntários, por isso os projectos daqui resultantes em parceria com o GAIA serao com certeza muito bons. A DECOIN é uma organizaçao ecologista que nasceu da luta contra as mineiras e que conta agora com variados projectos de educaçao ambiental e conservaçao dos bosques comunitários. A AACRI é a associaçao de micro-produtores de café biológico em sistema agro-florestal e comercializado através do Comércio justo. A ACAI é a associaçao de promoçao da produçao agro-ecológica na zona de Intag. O periódico Intag, de cariz ecologista, existe há nove anos e desenvolve a comunicaçao social com empenho das pessoas locais. O Consorcio Toisan, por sua vez, agrupa as nove mais importantes organizaçoes sociais, produtivas e ambientalistas da zona de Intag. E Eco-Junín, bem no meio do bosque nublado, é uma iniciativa de turismo ecológico e comunitário, que oferece alojamento e visitas a actividades tradicionais de fabrico de açucar de cana e de aguardente (também lá estivemos, claro), às áreas de luta contra as mineiras e a locais especialmente bonitos dentro do bosque.
Vimos certamente mais ricos de Intag. Foi emocianante conhecer as pessoas das organizaçoes, mas sobretudo os modestos habitantes campesinos de Junín que defendem a sua causa de coraçao e com inabalável empenho.

Accion Ecológica, uma organização inspiradora

Imaginem uma reserva natural amazónica no Ecuador onde num metro quadrado existem 644 espécies de árvores, mais do que em toda a América do Norte… Imaginem que existem nesta região comunidades indígenas nómadas que nunca viram a civilização. Imaginem que por baixo desta biodiversidade gritante existe uma grande reserva de petróleo. Imaginem um país em que 71% das exportações são de petróleo (10,5 milhões de usd) e que as explorações vigentes de petróleo têm um tempo de vida limitado…

E agora imaginem algo que parece impossível mas está a acontecer: uma organização ecologista, com 15 trabalhadores, que inicia e coordena uma campanha nacional e internacional contra a destruição desta reserva natural através de uma proposta para conseguir angariar 50% da receita espectável do petróleo.

Escritórios daAccion Ecológica em Quito-Ecuador.

Esta mesma organização muito atempadamente conseguiu fazer chegar, a uma comunidade extremanente isolada que vive no meio do Bosque Nublado, um ecossistema subtropical único no mundo, um estudo de impacte ambiental quase secreto sobre uma exploração mineira gigantesca de cobre que destruiria todo o ecossistema. Esta mesma Accion Ecológica levou um grupo de mulheres a visitar uma mina de cobre num país vizinho e muito rapidamente toda a comunidade impressionada pelo relato das mulheres e pelo estudo de impacte ambiental se ergueu para lutar contra o projecto de exploração mineira. Hoje são mais de 10 as organizações que trabalham nesta bacia hidrográfica para defender o ecossistema do Bosque Nublado. Conseguiram impedir a exploração mineira e expulsar a empresa estrangeira que queria invadir o território e controem agora o desenvolvimento sustentávelmente forte.
E dizem: “Com petróleo e cobre o Ecuador fica mais pobre!”

A Accion Ecológica, tem várias campanhas como se pode ver no site, desde a soberania alimentar, aos transgénicos, à mobilidade sustentável ou ao petróleo. Tem escritórios numa vivenda com jardim em Quito (ver foto) e tem vários projectos inovadores e criativos como por exemplo a “clínica ambiental”, um espaço onde se reúnem mensalmente dezenas de técnicos convidados especialmente para discutir as soluções para um problema ambiental declarado por uma comunidade ou grupo de cidadãos qualquer.

Produzindo estudos, publicações, acções, educação, formação, animação, informação e luta por um mundo mais justo para as comunidades que cuidam responsávelmente dos seus ecossistemas, a Accion Ecológica, no Ecuador, é sem dúvida uma organização excelente para fazer um voluntariado de superior qualidade em ecologia e acção.

Procuramos duas pessoas que por um ano vão… e voltem! (para partilhar e agir, também em Portugal)

sábado, 24 de outubro de 2009

Construindo em Super Adobe

Estamos agora alojados em casa de um dos líderes da Comunidade Tola Chica, uma comunidade indígena que foi a primeira no país a legalizar a sua Comunidade ganhando assim uma maior capacidade negocial para fazer face aos interesses dos projectos de florestacao de eucalipto ou face aos interesses imobiliários ou face aos interesses do estado. Esta comunidade que fala Espanhol e Quichua está legalizada desde 1944 e funciona com uma assembleia que decide e projecta os trabalho comunais. Um destes trabalhos é o Centro de Capacitacion que está a ser contruido baseado num design de Permacultura, na técnica de Super Adobe.
Tivemos a sorte de estar aqui para aprender esta técnica de construcao sustentavel e também trabalhar em conjunto com a comunidade e conhecer melhor esta cultura.

Rogeglio a demonstrar como se compacta o rolo de Super Adobe

Há muito para contar e muitas perguntas para responder...
Como é que a Permacultura chegou a esta comunidade?
Rogeglio, é membro da RedSemillas, permacultor e formador de comunidades indígenas nas áreas "manejo" florestal, agricultura biodinamica, conservacao de sementes e variedades tradicionais, compostagem, entre outros. Formado em Permacultura e com uma grande experiencia agrícola proveniente de toda a prática tradicional na sua comunidade, Rogeglio tornou-se num dos lideres da comunidade e sonhou contruir um centro de permacultura, formacao, espaco de saude natural, espaco para assembleia comunitaria, espaco de internet, biblioteca e tudo isto acompanhado de casas de banho secas, sistema de captacao de agua da chuva, sistema de tratamento de aguas, construcao ecologica em terra e um zonamento com zonas 1,2,3,4 e 5 , desde o espaco comunal, ä diversidade do bosque andino replantado até ao topo virgem da montanha onde se preserva e se contempla.